RÉQUIEM PARA A MINHA SORTE

Posted in Poesia com as tags , , , on Maio 27, 2008 by edonioalves

Quando eu morrer
Esqueçam da minha morte
Só não esqueçam que eu morri.

Não apenas que eu morri
Como permaneço insepulto
Nas poucas coisas que fiz.

No que fiz e ficou feito
De bom-errado ou direito
Que eu nunca me arrependi.

Por exemplo:
Ter amado tanto e todas
Mas, antes, sem que as tivesse
As mulheres que perdi.

Por isso quando eu morrer
Esqueçam da minha morte,
Mas não esqueçam que eu morri.

Que eu morri em cada gesto
De esperança afetado,
Em cada aperto de mão
Que eu pensava que foi dado.

Que eu morri em cada gota
Do suor que escorri.

Que eu morri pelos teus olhos
Os imaginando o mar
Em que findei por naufragar,
E pensavas que eu vivi!

Quando eu morrer, amigos,
Nunca esqueçam:
Esqueçam da minha morte,
Nunca esqueçam que eu morri.

E que nem morrer é remédio
A se tomar para a vida
Que muito mais que morrer
Viver é que é despedida
De nado ao que dar adeus.

Assim vão os dias teus
Que não diferem dos meus,
Exceto por um detalhe:
Os poetas vivem os dias
Como se os vivessem Deus.

Por isso quando eu morrer, amigos,
Nunca esqueçam:
Esqueçam da minha morte,
Mas não esqueçam que eu morri.

E que só morto (amiúde supultado),
Nulo, extinto, consumado,
Assim viverei feliz.

IN: Os Amantes de Orfeu & Poemas de Rima Interior
Edônio Alves Nascimento
Ed. Manufatura/1999
João Pessoa/PB

O DUPLO ESPELHO

Posted in Poesia com as tags , , , on Maio 27, 2008 by edonioalves

Por trás de uma pessoa
há sempre uma pessoa outra
que lhe oculta.

Ou, antes, uma pessoa noutra
em que ambas
uma só pessoa avulta.

Há numa pessoa só,
uma pessoa mútua
de outra pessoa neutra,

noutra pessoa múltipla.

IN: Os Amantes de Orfeu & Poemas de Rima Interior
Edônio Alves Nascimento
Ed. Manufatura/1999
João Pessoa/PB